domingo, 17 de fevereiro de 2013

QUEM QUIS AS MORTES ?



     O fogo na boate “Kiss”, na cidade de Santa Maria,  no Rio Grande do Sul, no  domingo, dia 27  de janeiro, iluminou os céus, queimou corpos de jovens estudantes universitários, transformou sonhos em cinzas e  futuros em sombras. De sã consciência,  não  sabemos como  responder a pergunta-título do que ora escrevemos; mas , estamos convicto,  de que o  “não fazer”, já tão incrustado  em nossa sociedade, foi o somatório negativo que positivou tal desenlace. Segundo estatísticas,  foi uma das maiores tragédias acontecidas nos últimos cinquenta anos, no Brasil.
      O  brilho do encontro dos estudantes, desencantou-se num infeliz acender de luz , deixando  rastilhos  de afirmações, contradições, evasivas, negações   e reticências ; em desastroso  desencontro  de palavras e acusações mútuas ,entre órgãos e pessoas responsavelmente  irresponsáveis.  A palavra “Quis”, no presente caso,  deve ser  assim traduzida: dar motivos para...,  ter a vontade de...,  permitir, admitir , supor e tolerar.
     Quis ,quem  ainda  não implantou  documentos legais  para proteção  de  crianças, jovens e adultos em tal  ambiente e similares. Quis, quem deixou de fiscalizar, de modo preventivo, as reais condições que o prédio ostentava. Quis, quem permitiu  superlotar  o ambiente com tantas pessoas, ignorando a capacidade máxima estipulada (inclusive com a presença de menores de 18 anos de idade),  na busca do lucro fácil e imediato. Quis, quem ordenou ou permitiu o uso da espuma fabricada com cianeto  na cobertura acústica da boate. Quis ,quem  tomou  conhecimento prévio da utilização dos fogos de artifícios  naquela noite.  Quis, quem tentou impedir a fuga daqueles ameaçados pelas  labaredas e  densa fumaça. Quis, quem ignorou  fornecer aos  seguranças, meios para que os mesmos se comunicassem entre  si;  entre outros fatores.  Enfim, quis, todos os atores  que fizeram parte  desse elenco  e, de uma forma ou de outra, colaboraram  para transformar a casa de show numa câmara crematória, que se traduziu  em  horrendo filme de terror.  
    Na afirmação  de que “  O acaso não existe”; qualquer fato primariamente evitável,  se transforma num  acontecimento  fatídico, quando permeado pelas mais nefastas negatividades  da condição humana;  sepultando mortos, como também, omissões, erros, cumplicidades e incompetências. O  fato que hoje causa clamor público e  nos traz tamanha tristeza,  amanhã, será facilmente esquecido. E,  para muitos, as lembranças     foram levadas pelos frevos,  arlequins e colombinas do carnaval que  passou. Só restaram  as indeléveis feridas,  jamais cicatrizadas,  daqueles  que perderam muito de si,  nos  sucessivos atos do adeus.  Não nos contenta  qualquer pensamento  agourento. Porém, temos dúvidas, se  essas dezenas de  mortes,  promoverão  mudanças. Por conseguinte, permanecemos  no aguardo  dos positivos  desdobramentos que os fatos motivarão. Ou do próximo desastre !

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