quinta-feira, 19 de março de 2015

os novos sotaques da seca



         OS  NOVOS  SOTAQUES  DA  SECA
            O primeiro relato sobre a problemática da seca do nordeste,  remonta aos idos de 1583. A seca é um fenômeno secularmente presente na vida da população nordestina , sendo mais causticante, nas sub-regiões do sertão e do agreste, onde o clima é o semi-árido e a caatinga como vegetação.São milhões de pessoas, miseráveis e famintas, que vegetam esquecidas pelo poder público. O conhecido polígono da seca abrange os estados da região e parte de Minas Gerais.  Anualmente, as estiagens  trazem a  esses locais, a fome para homens, mulheres e crianças  já subnutridos; o desemprego para jovens e adultos de pouca ou nenhuma escolaridade;  a grande mortandade de animais de corte;  a escassez dos alimentos providos da terra; a diminuição dos parcos recursos econômicos ;  o menor desenvolvimento da agricultura e o êxodo rural, fator principal para o “inchaço” populacional  e desordenado das grandes  cidades. Tudo isso, se traduz nas faces melancólicas, nos olhares sem esperanças e nos corpos enrugados que, com pernas vacilantes precisam andar durante horas, sob forte calor e sol escaldante,buscar  água suja e contaminada para saciar a sede. É uma rotina que se repete e repete anos sem fim. Em 1909, o Presidente Nilo Peçanha criou o Instituto Contra a Seca (IOS);  dez anos após,  Epitácio Pessoa o transformou no Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS).  Logo, os gestores se aliaram (tal como na Petrobrás de hoje) para dilapidarem o valioso patrimônio social. As ações políticas postas em práticas para minimizarem os fatores da seca, foram sempre paliativas ou  quase nada. Ao mesmo tempo, os investimentos eram pulverizados pelos desvios; enquanto a estrutura básica do órgão era relegada ao segundo plano. A manutenção do status quo das populações sofridas, era o principal objetivo dos  poderosos . Em 1959, o Presidente Juscelino cria a Superintendência  do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) que, anos depois, seria  reconhecida como a síntese da corrupção brasileira, servindo de cabide  de emprego para “os coronéis” da época, aos políticos incompetentes e aos amigos do poder.  Era a vontade explícita do não fazer. 
              As décadas foram passando. E nada mudou.  Então, surgiu a luminosa idéia da transposição do rio São Francisco, orçada em 4 bilhões de reais em 2007 e, atualmente, alçada em  quase 9 bilhões.  Os responsáveis e co-autores da atual situação, fogem das responsabilidades que lhes competem, atribuindo à natureza a origem e as razões do caos existente.Agora, a palavra que é sinônimo de estiagem ou falta de chuvas, tem pronúncias das mais variadas. Agora,  não é como antes;  para o Governo Federal e tantos outros, a seca “é problema brasileiro”,tornando-se vitrine das manchetes,  ao  ser noticiada em rádios, jornais e televisões. Atualmente, a seca pertence ao high-society , comentada nos luxuosos  gabinetes e discutida entre as elites. [i]Assim, aproveitemos o carnaval, vistamos nossas fantasias e nos juntemos aos palhaços dos salões, para cantarmos  juntos : “Você pensa que cachaça é água, cachaça não é água não.../ A água vai rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar...”.


[i]                                                                Marcelo Ronaldson Costa
                                                                   Coronel   PMAL    R/R
                                                                    Membro  da   A.A.I.

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