OS NOVOS
SOTAQUES DA SECA
O primeiro
relato sobre a problemática da seca do nordeste, remonta aos idos de 1583. A seca é um fenômeno
secularmente presente na vida da população nordestina , sendo mais causticante,
nas sub-regiões do sertão e do agreste, onde o clima é o semi-árido e a
caatinga como vegetação.São milhões de pessoas, miseráveis e famintas, que
vegetam esquecidas pelo poder público. O conhecido polígono da seca abrange os
estados da região e parte de Minas Gerais.
Anualmente, as estiagens trazem
a esses locais, a fome para homens,
mulheres e crianças já subnutridos; o
desemprego para jovens e adultos de pouca ou nenhuma escolaridade; a grande mortandade de animais de corte; a escassez dos alimentos providos da terra; a
diminuição dos parcos recursos econômicos ; o menor desenvolvimento da agricultura e o
êxodo rural, fator principal para o “inchaço” populacional e desordenado das grandes cidades. Tudo isso, se traduz nas faces
melancólicas, nos olhares sem esperanças e nos corpos enrugados que, com pernas
vacilantes precisam andar durante horas, sob forte calor e sol
escaldante,buscar água suja e
contaminada para saciar a sede. É uma rotina que se repete e repete anos sem
fim. Em 1909, o Presidente Nilo Peçanha criou o Instituto Contra a Seca
(IOS); dez anos após, Epitácio Pessoa o transformou no Departamento
Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Logo, os gestores se aliaram (tal como na
Petrobrás de hoje) para dilapidarem o valioso patrimônio social. As ações
políticas postas em práticas para minimizarem os fatores da seca, foram sempre
paliativas ou quase nada. Ao mesmo
tempo, os investimentos eram pulverizados pelos desvios; enquanto a estrutura
básica do órgão era relegada ao segundo plano. A manutenção do status quo das
populações sofridas, era o principal objetivo dos poderosos . Em 1959, o Presidente Juscelino cria
a Superintendência do Desenvolvimento do
Nordeste (SUDENE) que, anos depois, seria reconhecida como a síntese da corrupção
brasileira, servindo de cabide de
emprego para “os coronéis” da época, aos políticos incompetentes e aos amigos
do poder. Era a vontade explícita do não
fazer.
As décadas foram passando. E nada mudou. Então, surgiu a luminosa idéia da transposição
do rio São Francisco, orçada em 4 bilhões de reais em 2007 e, atualmente,
alçada em quase 9 bilhões. Os responsáveis e co-autores da atual
situação, fogem das responsabilidades que lhes competem, atribuindo à natureza
a origem e as razões do caos existente.Agora, a palavra que é sinônimo de
estiagem ou falta de chuvas, tem pronúncias das mais variadas. Agora, não é como antes; para o Governo Federal e tantos outros, a seca
“é problema brasileiro”,tornando-se vitrine das manchetes, ao ser
noticiada em rádios, jornais e televisões. Atualmente, a seca pertence ao high-society
, comentada nos luxuosos gabinetes e
discutida entre as elites. [i]Assim,
aproveitemos o carnaval, vistamos nossas fantasias e nos juntemos aos palhaços
dos salões, para cantarmos juntos : “Você
pensa que cachaça é água, cachaça não é água não.../ A água vai rolar, garrafa
cheia eu não quero ver sobrar...”.
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