terça-feira, 5 de agosto de 2014

AS ASAS DA MOSCA

       O fato registrado na cidade de Três Passos, no Rio Grande do Sul, que motivou o assassinato do menino Bernardo, de apenas 11 anos de idade, demonstra como as crianças continuam indefesas e ignoradas pelo poder público do nosso País; qualquer que seja a sua gradação. O pai do garoto, a madrasta e uma amiga desta, são apontados como responsáveis pela premeditação e execução do insano crime;assim como pela ocultação cadáver, enterrado numa cova rasa ,em um matagal. A ida do menino Bernardo, meses antes, ao Juizado e ao Ministério Público, em busca de auxílio, torna o caso em tela, em algo muito singular. Em ambas as Instituições, ele relatou os sofrimentos impostos por seu pai e sua madrasta. Porém, não foi atendido em seus anseios. Façamos agora, conjetura sobre o que pode ter ocorrido, após o menor Bernardo deixar as Instituições onde fora clamar ajuda : O Juiz e o Promotor, ao tomarem conhecimento da queixa , através dos seus respectivos assessores, telefonam para o médico, pai de Bernardo e narram os lamentos da criança. Após algumas palavras, os telefonemas se encerram com mútuos elogios e as palavras “Ótimo final de semana ou até outro dia”.Nada foi investigado. Tudo tão comum e corriqueiro aos nossos tempos. Como resultado, após algum tempo, a tragédia se concretiza. Como simbologia ao acontecido, imaginemos que, se capturarmos um inseto voador, arrancarmos suas asas e o colocarmos ao chão, observaremos que o mesmo começará a mexer-se tentando novo vôo. Porém, nota que lhe faltam asas. Então, seus movimentos tornam-se cada vez mais lentos. Em seguida, imobiliza-se, passa por um processo de intensa agonia e ... morre.
        Foi desse modo, gradativo e irresponsável, que procederam com o jovem vitimado. O mesmo ficou só e ilhado por um mar de negligências, incompetências e omissões. Sua voz não foi ouvida ; suas lágrimas não foram vistas e seus passos foram inúteis. Foi o início de um triste final. Destarte, há uma união de cumplicidade entrelaçando os Órgãos e pessoas responsáveis(?) pela salvaguarda e aplicação da Lei; ao termos notícias que os maus tratos e o tratar mal eram do conhecimento dos habitantes da pequena Cidade.
       Agora, os engravatados prevaricadores, sentados em suas confortáveis poltronas e aboletados nos seus atapetados escritórios, tentam explicar o injustificável. Todos nós, como sociedade, temos o dever e o direito de exigir um Poder Judiciário íntegro em sua coletividade e ilibado em sua individualidade. Constrange-nos verificar que, de algum tempo, a exceção se torna a regra. Sabemos que esse não é o primeiro, nem será o último registro de tal natureza. Mas, se impõe que outros “Bernardos”, ora vivendo sem existir ou espalhados pelas vielas do submundo, como párias da sociedade; sejam resgatados à condição humana. Negar o referido preceito, inato a cada um deles, é violentar a nossa Carta constitucional. E, a mesma, não merece ser tão ultrajada !

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