terça-feira, 5 de agosto de 2014

O FREVO NÃO DEVE MORRER

       Nesses três últimos carnavais, observamos com desagradável surpresa, que o ritmo do Frevo vem perdendo seus encantos . Lembramos quando nos dias de momo, podíamos ouvir em qualquer recanto seus belos acordes , imortalizados pelo compositor Capiba e tantos outros. As músicas eram de uma singeleza ímpar, enaltecendo a nossa nordestinidade e contagiando a alegria que nos embalava, independente de sermos ou não intrépido folião. Fomos testemunhas das brincadeiras que aqueles dias nos ofertavam, a começar do Entrudo ( momentos em que se acentuavam o mela-mela de talco, farinha, maizena, ovos e banhos de água); o Corso ( desfile de carros ornamentados, conduzindo mascarados, piratas, fadas, bruxas, heróis, palhaços, princesas, monstros, marinheiros e sereias) ; os blocos de rua; as frevanças matinais no clube da cidade, onde os Arlequins choravam pelo amores das belas e namoradeiras Colombinas; enquanto o sentimental Pierrô apenas a tudo assistia. O “fazer o passo” transformava todos em ingênuos brincalhões e, quem “ia para o carnaval” , tinha o verbo brincar como a principal finalidade. Tudo começava ao raiar do dia de domingo, quando o rei Momo tomava posse da chave da alegria , terminando à meia-noite da terça-feira. Era um reinado de paz. Porém, no melhor da festa vinha a quarta-feira ingrata.
       A palavra Frevo vem de ferver, pois, os trejeitos corporais do passista, faz parecer que abaixo dos seus pés exista uma superfície com água fervendo.Ele dança com uma colorida sombrinha aberta em uma das mãos.Desde os seus primórdios, a herança dos Frevo fez com que Pernambuco, Alagoas e Paraíba, a cada ano, se juntassem num único e grandioso carnaval. O Frevo e as marchinhas-carnavalescas, também tão queridas, tinham seus cantos entoados por inúmeros admiradores, a exemplo de “Ei, você ai, me dá um dinheiro ai; Olhe o Zé Pereira, olhe o carnaval; Menina vai, com jeito vai, senão um dia a casa cai; Varre , varre vassourinhas; Você pensa que cachaça é água; Eu fui a uma tourada em Madri ,pararatibum, bum bum”. Hoje, considerável parcela da população brasileira “se esconde “ do carnaval.É um percentual que cresce por sucessivos anos, como a demonstrar que os confetes e as serpentinas perderam suas cores e encontram-se na sarjeta. As fantasias foram mudadas. Hoje, o álcool, as drogas, a desfaçatez, o sexo libertino, as demonstrações de maus-costumes, as vítimas que são trucidadas nas estradas ou aquelas através da violência gratuita, continuam a ocultar o brilho dos estandartes. Nada a dizer ou não são dignas de comentários, as músicas de duplo sentido e de péssimo gosto que emporcalham os ouvidos , ferem os tímpanos e prostituem a maior festa popular do nosso País. Podemos afirmar que ainda é tempo para que algo seja feito, para doação aos nossos filhos e netos. Não queremos superestimar o pretérito, nem somos motivados pelo vão saudosismo, mas, pelo desejo do resgate dessa e de outras tradições. Pois, como canta o poeta : É de fazer chorar, quando o dia amanhece e vejo o Frevo acabar... !

Nenhum comentário:

Postar um comentário