Nesses três últimos carnavais, observamos com desagradável
surpresa, que o ritmo do Frevo vem perdendo seus encantos . Lembramos
quando nos dias de momo, podíamos ouvir em qualquer recanto seus belos
acordes , imortalizados pelo compositor Capiba e tantos outros. As
músicas eram de uma singeleza ímpar, enaltecendo a nossa nordestinidade
e contagiando a alegria que nos embalava, independente de sermos ou
não intrépido folião. Fomos testemunhas das brincadeiras que aqueles
dias nos ofertavam, a começar do Entrudo ( momentos em que se
acentuavam o mela-mela de talco, farinha, maizena, ovos e banhos de
água); o Corso ( desfile de carros ornamentados, conduzindo mascarados,
piratas, fadas, bruxas, heróis, palhaços, princesas, monstros,
marinheiros e sereias) ; os blocos de rua; as frevanças matinais no
clube da cidade, onde os Arlequins choravam pelo amores das belas e
namoradeiras Colombinas; enquanto o sentimental Pierrô apenas a tudo
assistia. O “fazer o passo” transformava todos em ingênuos
brincalhões e, quem “ia para o carnaval” , tinha o verbo brincar como a
principal finalidade. Tudo começava ao raiar do dia de domingo,
quando o rei Momo tomava posse da chave da alegria , terminando à
meia-noite da terça-feira. Era um reinado de paz. Porém, no melhor da
festa vinha a quarta-feira ingrata.
A palavra Frevo vem
de ferver, pois, os trejeitos corporais do passista, faz parecer que
abaixo dos seus pés exista uma superfície com água fervendo.Ele dança
com uma colorida sombrinha aberta em uma das mãos.Desde os seus
primórdios, a herança dos Frevo fez com que Pernambuco, Alagoas e
Paraíba, a cada ano, se juntassem num único e grandioso carnaval. O
Frevo e as marchinhas-carnavalescas, também tão queridas, tinham seus
cantos entoados por inúmeros admiradores, a exemplo de “Ei, você ai,
me dá um dinheiro ai; Olhe o Zé Pereira, olhe o carnaval; Menina vai,
com jeito vai, senão um dia a casa cai; Varre , varre vassourinhas;
Você pensa que cachaça é água; Eu fui a uma tourada em Madri
,pararatibum, bum bum”. Hoje, considerável parcela da população
brasileira “se esconde “ do carnaval.É um percentual que cresce por
sucessivos anos, como a demonstrar que os confetes e as serpentinas
perderam suas cores e encontram-se na sarjeta. As fantasias foram
mudadas. Hoje, o álcool, as drogas, a desfaçatez, o sexo libertino, as
demonstrações de maus-costumes, as vítimas que são trucidadas nas
estradas ou aquelas através da violência gratuita, continuam a
ocultar o brilho dos estandartes. Nada a dizer ou não são dignas de
comentários, as músicas de duplo sentido e de péssimo gosto que
emporcalham os ouvidos , ferem os tímpanos e prostituem a maior festa
popular do nosso País. Podemos afirmar que ainda é tempo para que algo
seja feito, para doação aos nossos filhos e netos. Não queremos
superestimar o pretérito, nem somos motivados pelo vão saudosismo, mas,
pelo desejo do resgate dessa e de outras tradições. Pois, como canta
o poeta : É de fazer chorar, quando o dia amanhece e vejo o Frevo
acabar... !
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